Farinhas
enriquecidas com ferro e ácido fólico e a dieta vegetariana: esclarecendo os mitos
Dr
nutriVeg Consultoria em Nutrição
Vegetariana
Junho de 2005
Histórico
Em
Estudos
demonstram que 70% dos casos de defeitos do tubo neural podem ser evitados com
a suplementação do ácido fólico. A vitamina é encontrada em vegetais
verde-escuros, frutas cítricas e cereais, além de produtos animais como fígado
e carnes em geral.
Além
do ácido fólico, a proposta da Anvisa também especificava a adição de ferro à
farinha com a finalidade de prevenir a anemia ferropriva, o que já havia sido
proposto
A Consulta Pública foi adiante e virou legislação e o
prazo para as indústrias se adequarem encerrou-se em 18 de junho de 2004. Hoje,
todas as farinhas de trigo e milho, com exceção, por limitações de
processamento tecnológico, de algumas formas dessas farinhas, são fortificadas
com as substâncias. Para a indústria, o custo da fortificação da farinha é
muito baixo. Para
Boatos
na comunidade vegetariana
Foi apenas em 2005 que a
comunidade vegetariana voltou a sua atenção para a questão. Desde então,
diversos boatos passaram a surgir e, para sanar ás dúvidas que têm chegado a
mim diariamente, reúno abaixo os esclarecimentos necessários acerca dessa
questão.
A questão que passou a ser levantada pela comunidade
vegetariana (a vegana em especial) pode ser sumarizada pelo seguinte trecho de uma
mensagem recebida: “Fiquei sabendo da lei que
aprovaram dos alimentos serem enriquecidos com ácido fólico e ferro, e isso é
obtido da hemoglobina, pelo que sei. Se você puder me informar se tem marcas
que usam formas sintéticas de obter isso, agradeço”.
A partir desse mal-entendido, enquanto os boatos continuam
a aumentar, alguns indivíduos deixam de consumir qualquer alimento que tenha
sido preparado com farinhas de trigo ou milho, o que não se justifica, pois essas
farinhas NÃO SÃO FORTIFICADAS COM COMPOSTOS DE ORIGEM ANIMAL!
Fatos
e esclarecimentos
A Anvisa determinou que possam
ser utilizados na fortificação os seguintes compostos: sulfato ferroso desidratado
(seco); fumarato ferroso; ferro reduzido – 325 mesh Tyler; ferro eletrolítico – 325 mesh
Tyler; EDTA de ferro e sódio (NaFeEDTA)
e ferro bisglicina quelato. Outros compostos podem
ser usados desde que atendam, no mínimo, ao mesmo nível de biodisponibilidade dos
compostos citados acima.
Todos os compostos utilizados na fortificação são de
origem química ou sintética, conforme explica a nutricionista da empresa
Albion, Dra.
O
ferro oriundo da hemoglobina (animal) chegou a ser considerado para a
fortificação, mas foi desqualificado devido ao risco da presença de
contaminantes. Também o custo do composto de origem mineral é inferior. Para
chegar a essa conclusão, basta uma reflexão sobre a logística que seria necessária
para colher, transportar, armazenar, processar e controlar o sangue obtido de frigoríficos.
Os compostos minerais são mais facilmente controlados e processados e por isso
nenhuma indústria optou por insistir em compostos oriundos de produtos animais.
A nutriVeg Consultoria em Nutrição Vegetariana contatou algumas
das indústrias químicas que fornecem a matéria-prima às indústrias alimentícias
e obteve algumas respostas esclarecedoras. Seguem abaixo alguns trechos dessas
respostas.
Mcassab: “Informamos que não são utilizados derivados de hemoglobina animal em
fortificação de farinhas. Geralmente usa-se ferro reduzido ou sulfato de ferro”.
Roche: “Informamos que os sais de ferro que temos em nossas formulações são
minerais inorgânicos”
As
exigências da legislação e as respostas das indústrias químicas são bastante claras
e objetivas e não deixam dúvida sobre a questão: no Brasil, a fortificação
de farinhas com ferro e ácido fólico não envolve a utilização de produtos
animais.
Intervenções em saúde pública
para vegetarianos e veganos
Enquanto
os vegetarianos e especialmente os veganos poderiam beneficiar-se mais da
fortificação de alimentos com a vitamina B12 ao invés do ácido fólico, há
justificativas de saúde pública para a fortificação de farinhas com os
compostos previstos nessa legislação, apesar da prática também ser passível de
contestação.
A
existência de questões como “todos devem
ser submetidos à fortificação com ferro e ácido fólico quando muitos não
necessitariam dessas substâncias adicionadas” sempre será um dilema
interminável em saúde pública, pois nessa área as intervenções nem sempre (ou
raramente) beneficiam a todos. Alguns irão comemorar os benefícios da adição do
mineral e da vitamina às farinhas, pois esses são de fato carentes em
determinados estratos populacionais, enquanto outros irão argumentar que o
consumo excessivo de ferro é nocivo aos que já têm ingestão e níveis normais do
mineral e assim por diante.
A
intervenção correta seria uma pontuada, que oferecesse o nutriente carente às
populações especificamente carentes no nutriente, e apenas a essas. Mas isso é
uma utopia no nosso modelo social atual. Os veganos, que se beneficiariam da
fortificação de alimentos com a vitamina B12 poderão um dia comemorar a
implementação de uma estratégia ampla nesse sentido, enquanto outros grupos
criticarão a iniciativa. Aliás, a deficiência de vitamina B12 também tem uma importante
correlação positiva com a incidência de má formação do tubo neural, motivo que
justificou a fortificação com o ácido fólico, mas olvidou o papel conjunto da
vitamina B12.
Vegetarianos e veganos podem
ficar tranqüilos com relação ao assunto da fortificação, uma vez que é claro
que o processo de fortificação de farinhas com ferro e ácido fólico no Brasil
não envolve o uso de produtos de origem animal.
À
Sua Saúde!