Sobre vegetais e a Lua

Tudo começou poucas décadas após o estabelecimento da primeira colônia lunar. Assim que notaram que os vegetais cultivados com ar da atmosfera terrestre, em ambiente e gravidade lunar, cresciam a uma taxa surpreendentemente acelerada, começou o trânsito de vegetais em direção à Terra, acompanhado do trânsito de ar da atmosfera terrestre para a Lua. As vantagens eram óbvias: os vegetais cresciam mais rápido e, além do que, todos na Terra só querem consumir vegetais extra-terrestres, estando dispostos a pagar mais por isto. Alguns grupos tentam expor as desvantagens deste sistema de produção desde os primeiros anos, mas suas vozes não são ouvidas, pois a indústria trata de difundir as vantagens de se alimentar como um extraterrestre através de diversas ações promocionais, como a onda dos "alimentos orbitais", lançada entre os jovens. A verdade era que estes alimentos, apesar de sua morfologia diferenciada e custo elevado, não eram superiores àqueles cultivados no próprio planeta pelas populações que decidiram ficar aqui por não terem recursos para se mudarem com suas famílias ou por acreditarem que o mais natural à espécie humana é morar no planeta Terra.

Não demorou muito para as conseqüências sociais e ambientais da prática começarem a se manifestar. Os grupos que se opunham ao cultivo lunar crescem, à medida que o ar da atmosfera terrestre passa a ser mais e mais escasso, mas o movimento não atinge a massa da população terrestre que, apesar de sofrer com as conseqüências da depleção atmosférica, não entende claramente a causa do problema, frente à diversidade de complexas teorias propagadas pela imprensa e pela comunidade científica. A explicação simples de que a causa do problema é a retirada de ar da atmosfera para o cultivo lunar parece ser demasiadamente simples para ser considerada entre as diversas teorias desenvolvidas a partir de constatações aferidas por equipamentos avançadíssimos, desenvolvidos pela mesma indústria que desenvolveu os equipamentos de transporte e contenção atmosférica. Além do que, aceitar a teoria de que dois mais dois são quatro implicava em abrir mão do consumo de vegetais lunares, que eram um símbolo de status e progresso social há gerações, parte inseparável da cultura do povo terrestre. Vegetais cultivados na Terra eram para revolucionários e excluídos que não aceitavam o status quo por alguma motivação ideológica que não dizia respeito à maioria da população.

Mas eles estavam enganados e iriam descobrir isto da pior maneira, já que nenhuma solução tecnológica poderia ser bem sucedida enquanto não houvesse uma mudança de direção. Logo os problemas que afligiam apenas uma pequena parte da população atingiriam também os que tinham acesso à tecnologia e inclusão social. Era apenas uma questão de tempo, pois agora não se tratava de como contornar ou concentrar os problemas em uma parte da população para o resto continuar usufruindo, o fato era que não havia mais recursos e o dano já estava feito.

Mais pessoas davam ouvidos agora aos grupos que antes lhe causavam apenas indiferença, identificando-os agora como os guardadores da solução para o seu flagelo. Ainda era difícil para aqueles cujos avós nasceram sabendo que os vegetais lunares eram superiores e os vegetais terrestres (e aqueles que os cultivavam) eram inferiores aceitar que tudo foi causado por uma simples opção cultural, estética. "Tão simples, agora sabemos. Porque estas vozes não foram ouvidas enquanto a solução estava mais próxima? Tudo isto poderia ter sido evitado. Nossa sociedade nunca mais será a mesma." Talvez estivessem gritando em diferentes frentes, com diferentes vozes, mas sempre sufocados por interesses econômicos, por preconceitos sociais e culturais, por uma ignorância generalizada, mas, principalmente, por falta de visão. Era tudo o que era necessário para que a mudança se iniciasse muito antes. Visão dos fatos como eles se apresentavam, sem grandes complicações. Bastava entender que os recursos são escassos e não podem ser utilizados de forma irracional. Os avós dos seus avós adotavam esta prática e, em sua época, não eram práticas irracionais, é verdade. Mas os tempos haviam mudado e já havia indícios de que ela se tornaria nociva se mantida. Bastava visão para eles enxergarem que as práticas então sustentáveis não seriam mais sustentáveis na época de seus netos. Se seus avós tivessem vislumbrado o flagelo que aguardava seus netos, perceberiam que aquela mudança reivindicada por um pequeno grupo da sociedade e ridicularizada pela maioria não era tão absurda assim, já que tinha um propósito claro: garantir a sobrevivência das próximas gerações. Também não era tão difícil assim mudar os hábitos alimentares quando isto significaria garantir condições para que seus netos tivessem um futuro saudável, e isto é motivação suficiente para qualquer mudança de comportamento desde os tempos em que o homem ainda não havia pisado em solo lunar, o que aconteceu no século XXIII , um século antes da colonização.

Aliás, toda a história do milênio anterior ao nosso (séculos XI a XX), em especial a do último século deste período, e de outras civilizações humanas antigas, sempre foi determinada pela falta de visão. As situações eram sustentadas até o último momento, até que se tornassem insustentáveis, derrubadas de forma brusca, não por escolha, mas por falta de alternativas. O sofrimento e o dispêndio de energia para reestruturar o que estava fragmentado eram enormes, centenas de vezes maiores do que o necessário para fazer a mudança ocorrer de forma progressiva.

Mas estes eram outros tempos, é difícil compreender o que se passava nas mentes dos indivíduos daquela época, suas prioridades, seus anseios. A impressão que se tem é de que valores não-humanos tinham importância maior e eram motivo de realização individual para os que viviam naquela sociedade. Não é possível julgá-los, mas a história indica que a realização individual era realmente motivo de contentamento naquela época, mesmo que em detrimento de valores humanos. Como eu disse, é difícil entender a sociedade de uma época tão distante no tempo. Aqueles que desejam entender mais sobre como se davam estas relações de valores no milênio passado, leiam "A Queda do Império dos Estados Unidos Americanos", e percebam que o motivo central do trágico fim deste histórico Império, que afetou toda a humanidade e abriu caminho para que chegássemos aonde chegamos, estava na incoerência de valores.

Outras fases negras seguiram, como a fase lunar, à qual retornamos agora. Felizmente, desta vez, a história termina bem. A sociedade humana foi capaz de compreender que as mudanças eram urgentes e foram capazes de reverter o cenário, após muitos anos de trabalho e sofrimento. É claro que naquela época a mobilização só foi possível após a situação ter sido dada como incontornável. Apenas então os primeiros passos concretos foram dados. Apesar de não ser como resolvemos as coisas em nossos dias, a mobilização observada naquele tempo foi extraordinariamente notável se comparada com a maneira como as coisas foram encaminhadas no início do século XXI (2), cujo desfecho todos nós conhecemos: o período mais negro em toda a história da humanidade. Agora tudo o que ocorreu durante o início do milênio pode parecer apenas uma passagem distante em nossa história, mas nossos bisavós souberam o quanto tudo foi real e hoje desejamos que isto nunca mais se repita. A sociedade da época lunar soube olhar para este período, para eles recente, e souberam se mobilizar, mudando antes do colapso completo, como o que se deu no início do século XXI.

 

1 - apesar do governo do país conhecido como Estados Unidos da América, na América do Norte, nunca ter admitido que a missão lunar de meados do século XX foi uma farsa, é sabido que o primeiro homem (no caso, uma mulher) pisou na Lua em 2.222, muitos anos após a falência destes estados que se uniram em 1.728.

 

2 - Apesar de alguns historiadores relatarem o início da queda do Império dos Estados Unidos Americanos ainda no século XX, com base em documentos produzidos ainda no século XX por algumas nações e organizações, a maioria da população mundial da época não tinha a percepção real dos fatos. No século XX, a percepção, principalmente do chamado "mercado" (mecanismo da época que regia todas as áreas da sociedade), era de progresso e prosperidade. Portanto, a verdadeira depressão ocorreu apenas no século XXI, apesar de haver indícios de que muitas populações (alguns dizem que a maioria da população humana!) já viviam em situação sub-humana, não apenas no que tange as necessidades físicas, como, surpreendentemente, no aspecto moral. Havia fome e miséria em parte porque animais eram alimentados para alimentarem seres humanos, e sabemos que toda a população humana poderia ser alimentada de forma adequada se o cultivo de alimentos vegetais fosse destinado ao consumo humano direto. Aliás, aqueles que defendem que uma população tão bárbara a ponto de consumir o cadáver de outros animais não tinha desenvolvimento intelectual suficiente para concluir que esta forma de produção de alimentos é contraproducente estão equivocados, pois há evidências claras de que a sociedade daquela época sabia deste fato. O hábito era mantido pelo mesmo motivo que levou a sociedade da época lunar a manter o trânsito de ar para a Lua e de vegetais lunares para a Terra, outra prática contraproducente que foi mantida por décadas, e não podemos dizer que a sociedade da fase lunar era bárbara ou intelectualmente subdesenvolvida. Este motivo era a falta de visão.